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Xeque-mate, 2007





                Em Xeque-mate, peles de gado de corte foram reduzidas, diagramaticamente, a um “tabuleiro” sobre o qual jaz, atravessando-o diagonalmente, um cordão de chumbo retorcido pela força da minha mão. O arranjo é acondicionado numa estrutura de madeira laqueada, encimada com uma trama de retalhos de peles costurados e colados à estrutura – o “tabuleiro” – que reveste o seu tampo; e uma cúpula de acrílico cristal, formando uma vitrina. Tal estrutura display é tomada como o corpo mesmo da escultura, não simplesmente como uma base ou suporte neutro. 

               Xeque-mate integra o conjunto de trabalhos reunidos na mostra intitulada Exposição (2007). Em Exposição, busquei concatenar e estabelecer uma relação entre os trabalhos, conferindo um estatuto ativo aos espaços deixados vazios; com isso, ao mesmo tempo que procurei resguardar certa autonomia de cada um deles, mergulhei-os numa espécie de feixe de relações recíprocas, situação na qual o visitante poderia se descobrir permanentemente convidado a redefinir o conjunto. Desejei, com uma espécie de ênfase atribuída a esses espaços deixados vazios entre os trabalhos, materializar, tornar palpáveis os intervalos entre eles. 

              Os trabalhos que compuseram essa mostra – cujo título Exposição enunciava literalmente os problemas com o quais me defrontei naquela ocasião, e que reaparecem na exposição Corte (2010) – foram livremente inspirados na novela História do olho1, de Georges Bataille (1897-1962), como também no ensaio Espelho da tauromaquia2, de Michel Leiris (1901-1990). Considerada uma “autobiografia sem rosto”3, escrita nos tempos de Lord Auch4, a novela de Georges Bataille fala da “migração de um objeto”5. Discorre sobre a saga de três irrequietos jovens, ansiosos e turbulentos – o narrador, Simone e Marcela –, despudorados e violentamente animados pela ideia de levar o corpo, a vida e a morte, mediante a supressão e/ou a ausência de limites. Algo que igualmente me atraiu nessa novela, nesse “ativo fermento de especulação”6, é o fato de ela constituir um “relato seco e despojado, que evita rodeios expressivos, subterfúgios psicológicos ou evasivas de qualquer outra ordem”7

              Já o ensaio de Michel Leiris analisa o espetáculo da tauromaquia – a corrida espanhola, sua preparação e os passes do torero – “sob o ângulo das relações que mantém notadamente com a atividade erótica”8, como se estivesse diante de um desenho. Nessa espécie de ensaio estético, ele a define como “uma arte trágica”, apontando o descompasso, o desvio e a dissonância como aspectos essenciais àquela arte, a toda arte, pois “nenhum prazer estético será então possível sem que haja violação, transgressão, excesso, pecado em relação a uma ordem ideal que faz as vezes de regra; não obstante, uma licença absoluta, como uma ordem absoluta, não teria como ser mais que uma abstração insípida e desprovida de sentido”9. Espelho da tauromaquia é citado com admiração por Georges Bataille no prefácio de L’Érotisme – livro que dedica a Michel Leiris. 

              Tanto a novela História do olho, de Georges Bataille, como o ensaio estético Espelho da tauromaquia, de Michel Leiris, cada um a seu modo, foram “fermentos” – a partir de uma potência imaginativa – para a realização de Xeque-mate. Ademais, foram tomados como substâncias inflamáveis e em sua própria dimensão material, pois explicitam uma noção de limite que, de alguma maneira, aparece na evidência física deste trabalho: seja pela gestualidade e força empregadas no cordão de chumbo retorcido por meio de uma relação física e corporal por elas estabelecida, seja no tabuleiro de peles costurado, formando, a partir de retalhos emendados, uma trama orgânica.

Thiago Honório, novembro de 2011.



1. Publicada em 1928, trata-se da novela que marca a estreia de Georges Bataille, na qual o autor discorre sobre as aventuras de três adolescentes “cujo frenesi sexual não exclui o desfrute”: o narrador, sua amiga Simone e Marcela. A história assinala intrigantes questões sobre o corpo, a vida e a morte, numa dimensão erótica e libertária que a aproxima de autores como Maurice Blanchot (1907-2003), Michel Foucault (1926-1984), Michel Leiris, Raymond Queneau (1903-1976), Roland Barthes (1915- 1980) — para quem Georges Bataille teria escrito a história de um objeto — e Yukio Mishima (1925-1970). BATAILLE, Georges. História do olho. Trad. e prefácio Eliane Robert Moraes. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

2. Ensaio publicado originalmente em 1938, no qual o autor analisa o espetáculo da tourada espanhola a partir da antropologia, do erotismo e da estética. LEIRIS, Michel. Espelho da tauromaquia. Trad. Samuel Titan Jr. São Paulo: Cosac Naify, 2001.

3. De acordo com Eliane Robert Moraes no prefácio ao livro, p. 13. Cf. nota 2.

4. Parafraseando o título do ensaio de Michel Leiris, “Nos tempos de Lord Auch”— que evoca um dos “caricatos” e insólitos pseudônimos adotados por Georges Bataille — publicado pela primeira vez em L’Arc 44, janeiro-março de 1971, no número especial dedicado a Bataille, e comparecendo posteriormente no posfácio da edição brasileira de História do olho, publicada em 2004. LEIRIS, Michel. “Nos tempos de Lord Auch”. Trad. Samuel Titan Jr. In: BATAILLE, Georges. Op. cit., p. 105.

5. Ideia desenvolvida por Roland Barthes no ensaio “A metáfora do olho”,publicado originalmente em Critique 195-196, agosto-setembro de 1963, edição especial dedicada a Georges Bataille, e, posteriormente, no posfácio da edição brasileira de História do olho, publicada em 2004. BARTHES, Roland. “A metáfora do olho”. In: BATAILLE, Georges. Op. cit., p. 119.

6. Michel Leiris nos diz, no seu já referido ensaio “Nos tempos de Lord Auch”,que as ideias de Marcel Mauss (1872-1950) foram para Georges Bataille “um ativo fermento de especulação”. LEIRIS, Michel. Op. cit., p. 114. O Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, redigido entre 1923 e 1924, causou grande impacto em Bataille, que, por sua vez, apresentará uma teoria que começa a formular em 1932 no ensaio A noção de despesa, decorrente da leitura do trabalho de Mauss, no qual o antropólogo descreve seus estudos referentes à prática do potlatch pelas tribos indígenas do noroeste americano. Ver: MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003; e BATAILLE, Georges. A parte maldita. Precedida de A noção de despesa. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

7. De acordo com Eliane Robert Moraes. In: BATAILLE, Georges. História do olho. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 14.

8. LEIRIS, Michel. Op. cit., p. 15.  

9. Cf. nota 8, p. 20.







Ficha técnica

Xeque-mate
, 2007
Fio de chumbo retorcido, peles, acrílico e madeira laqueada
70 x 70 x 100 cm

foto: Edouard Fraipont


Exposições

Exposição
, Palácio das Artes, MG, 2011
Exposição
, Galeria Virgilio, SP, 2007



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