Pintura de parede, 2013-2025
Definição de desmembramento
Um livro é um morto, uma espécie de múmia, estripado e embalsamado,
mas que um dia teve carne e movimento e uma infinita
variedade de determinações e ações.
William Godwin, Fleetwood
Um livro é um morto, uma espécie de múmia, estripado e embalsamado,
mas que um dia teve carne e movimento e uma infinita
variedade de determinações e ações.
William Godwin, Fleetwood
Os trabalhos da série Pintura de parede iniciados em 2013 passaram por uma espécie de taxonomia sobre uma mesa de dissecação. Uma vez dissecadas, as lixas gastas utilizadas na reforma de minha residência e de meu ateliê –– localizados no mesmo apartamento no centro de São Paulo ––, que constituem esses trabalhos, geraram mínimas aparas, sobras finas de filetes e refilos quando foram refiladas para a realização das pinturas pertencentes à outra parte série, intitulada Pintura de parede [retalhos], produzida entre 2020 e 2021. Agora, entre 2024 e 2025, essas aparas foram reaproveitadas nas pinturas Pintura de parede [refiles]. Nestas últimas, o procedimento taxonômico de dissecação dessas lixas consiste, então, em “pintar”, compor a partir de todos esses refilos dos retalhos das lixas, refilos que seriam descartados.
Como mencionado, trata-se de aparas, refilos derivados de um conjunto anterior à mesma série –– o dos “retalhinhos” ––, agora reanimados, reerotizados, reutilizados no conjunto dos “refilos”. Por um lado, esse movimento derivativo em meio à dissecação do “corpo” da lixa, nas dimensões e no processo de construção dessas pinturas, poderia ser tomado como uma matrioska, boneca russa que guarda um dentro dentro de um dentro, estimulado por um movimento gerado pelo outro, pelo outro e pelo outro –– uma repetição ––, um gesto gerado pelo outro e pelo outro –– o que enfatiza a dimensão temporal meditativa e mesmo dilatada gasta em sua execução –– em cada uma dessas pinturas, e por sua minúcia contrários à aceleração contemporânea.
Essas pinturas são formadas por duas partes. Podem ser instaladas no plano da parede do corpo arquitetônico, ou em angulações presentes em quinas ou cantos, aludindo sempre, a meu ver, a uma escritura esfolada, ferida, machucada, na arquitetura, também pelas frações, secções, fatias, fragmentos, rebarbas e sobras evidenciadas em suas superfícies constituídas por essa matéria de descarte, a partir do refilo feito pelo corte das bordas e extremidades dos retalhos de lixas usadas.
Ao falar de escritura na arquitetura, no processo de realização dessas pinturas, pensei muito em sua matéria tramada e em dispor e compor com esses filamentos e aparas um movimento quase cinético, cuja horizontalidade e descontinuidade formasse, no olhar, uma urdidura, uma trama, um tecido: o texto de um “livro” a partir de sobras e refilos que foram livrados um dia, dos quais nos livramos, ou que o processo livrou.
No caso de da série Pintura de parede [retalhinhos], o movimento e o gesto são de outra ordem. Espelham uma porção de lixa, tal como uma porção de fazenda que se cortou de uma peça para fazer uma colcha de retalhos, enquanto na série Pintura de parede [refilos] há certo aspeto de um corpo mumificado: uma pintura enfaixada pelos pequenos refilos, filamentos e listras que a integram.
Por fim, nessa janela de prospecção reversa, nesse nicho arqueológico avesso, eis que essas pequenas pinturas apresentam-se como machucados, feridas no corpo arquitetônico, na casa, podendo ser instaladas em lugares e alturas menos convencionais e usuais, ativando-os, contracantos, quinas, próximas a interruptores, rodapés, guarnições.
Thiago Honório, março de 2025.
Ficha técnica
Da série Pintura de parede [refiles], 2013-2025
Refiles de lixas utilizadas na pintura das paredes da residência e do ateliê do artista
13,3 x 10,7 cm
13,3 x 21,4 cm [quina]
Da série Pintura de parede [retalhinhos], 2013-2025
Retalhos de lixas utilizadas na pintura das paredes da residência e do ateliê do artista
13,3 x 10,7 cm
13,3 x 21,4 cm [quina]
foto: Edouard Fraipont