Estudo para Visto, 2025-2026
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- É verdade que a visão depende do movimento. Só se vê o que se olha. Que seria a visão sem nenhum dos movimentos dos olhos, e como esse movimento não confundiria as coisas se ele próprio fosse reflexo ou cego, se não tivesse suas antenas, sua clarividência, se a visão não se antecipasse nele?1
Os desenhos da série Estudo para Visto produzidos em 2026, continuaram sendo realizados com lápis de cor aquarelável sobre papel quadriculado japonês, no entanto, tanto a sua palheta como as imagens criadas abriram-se, por assim dizer, a outras tonalidades e outros contornos.
Se antes, os desenhos dessa série, realizados entre 2024 e 2025, tiveram sua palheta detida em tons terrosos, no caso destes produzidos agora, somaram-se àqueles, laranjas, vermelhos carminados, rosas e roxos.
Os contornos e silhuetas delgadas também revelaram-se mais florais, partindo, ainda, da observação de volutas, cornijas, florões, anjos e ornamentos do barroco e do rococó mineiro do século XVIII, mas também submetidos a expedientes de deformação e transformação da imagem criada, flertando, também, com elementos decorativos do art nouveau.
Uma vez construídas essas imagens que adornam um olho, ou espécie de amuleto, máscara, talismã ou joia barroca nos quais é incrustado um olho – o olho que “vê o mundo e o que falta ao mundo (...)”2 –, privilegiando uma palheta mais terrosa e avermelhada, foi decidido que esses desenhos fossem montados em retalhos de couro natural tingidos de tons vermelho que mantinha em meu ateliê, e que haviam sido usados no restauro de poltronas e cadeiras nele presentes. Nessa montagem, o couro estaria presente tanto numa zona radial que envolveria os desenhos retangulares verticais e horizontais, como os ovais também em ambas as orientações e sentidos, fazendo as vezes de um passe-partout, como revestindo os perfis da moldura como um todo. Imaginei que o profissional que executaria essas montagens fosse um sapateiro, devido à precisão e à minúcia requeridas para a construção deste “corpo”, no entanto, aquele que respondeu melhor, acabou ficando responsável por elas, foi um encadernador de livros antigos. Tal montagem sublinhou ainda mais essa leva de desenhos Estudo para visto a noção de corpo, de pele.
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Visível e móvel, meu corpo conta-se entre as coisas, é uma delas, está preso no tecido do mundo, e sua coesão é a de uma coisa. Mas, dado que vê e se move, ele mantém as coisas em círculo a seu redor, elas são um anexo ou um prolongamento dele mesmo, estão incrustadas em sua carne, fazem parte de sua definição plena, e o mundo é feito do estofo mesmo do corpo.3
De certo modo, veio com esse corpo dos recentes desenhos da série Estudo para Visto algo de fetiche.
Thiago Honório, julho de 2026.
1. MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 16.
2. ___________ . O olho e o espírito. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 19.
3. ___________ . O olho e o espírito. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 17.
Ficha técnica
Estudo para Visto, 2025-2026
Lápis de cor aquarelável e grafite sobre papel quadriculado; couro
22 x 26 cm
26 x 36 cm
36 x 26 cm
foto: Edouard Fraipont
Exposições
Inverno dentro do bosque, Luciana Brito, SP, 2026